Minha neta completou dois anos.
E eu, que nem sou emotiva (cof, cof...), vivi essa comemoração como uma celebração das mulheres que vieram antes dela.
Enquanto segurava aquelas mãozinhas pequenas, lembrei das mãos das minhas avós. Das lembranças que ficaram. Das que nunca existiram. E de como o amor pode atravessar gerações sem precisar dizer muita coisa.
Minha avó materna faleceu quando eu tinha apenas seis anos. Convivi muito pouco com ela, o que é realmente uma pena. Às vezes penso no quanto minha vida seria mais rica se tivesse convivido mais com a mãe da minha mãe. Quanto entendimento eu teria adquirido, ainda cedo, sobre quem eu sou a partir de quem ela era. Sobre o que poderia ter me ensinado a respeito da minha própria mãe.
Mesmo com essa grande lacuna, e apesar da distância física — ela morava muito longe — ficaram duas lembranças muito vivas.
Na primeira, ela brigava com todos os netos por causa de alguma arte que fizemos juntos. Mas ralhava especialmente com meu primo, que morava com ela e era o mais sensato e comportado de todos. Justamente por isso: porque ele deveria ter impedido a bagunça antes que desse M*, e não impediu.
A outra lembrança é dela sentada na cadeira, diante do fogão à lenha. Cobertor sobre o colo. Chimarrão nas mãos. Serenidade no rosto, mas sacudindo a perna daquele jeitinho inquieto que hoje me faz sorrir e pensar: será que veio daí?
Em compensação, minha avó paterna foi muito presente na minha vida. Morávamos na mesma cidade e eu também fui a primeira neta — um privilégio que não posso negar.
Ela nunca foi exatamente uma avó carinhosa. Demonstrava amor de outras formas.
Passei muitos dias, às vezes semanas, na casa dela. Ela e minha dinda eram outro tipo de mãe. Ralhavam mais comigo do que meu avô, que era um verdadeiro bobão — no melhor sentido da palavra — e fazia todas as minhas vontades.
Para resumir nossa relação, basta lembrar do dia em que ela faleceu, vítima do Alzheimer.
No velório, eu não conseguia reconhecê-la.
Ela havia emagrecido muito. Parecia menor. Como se tivesse encolhido. Os cabelos estavam completamente brancos. A doença avançou tão depressa que ela deixou de ser aquela senhora imponente e vaidosa numa velocidade que eu não consegui acompanhar.
Sem maquiagem, sem joias, sem o cabelo cuidadosamente pintado e escovado, usando uma roupa simples... aquela mulher parecia uma desconhecida.
Até que olhei para suas mãos.
Estavam juntas, repousando sobre o colo.
Toquei nelas.
E imediatamente reconheci o toque que guiou as minhas durante tantos anos.
Foi ali que chorei.Não chorei de tristeza. Ela já sofria havia muito tempo com uma doença sem cura e sem alívio.
Chorei pela constatação daquele amor.
Um amor que nunca foi espalhafatoso. Que nunca precisou de grandes demonstrações. Um amor transmitido pelas mãos segurando as minhas.
Foi exatamente essa lembrança que voltou ao meu coração enquanto segurava as mãos da minha neta nesses últimos dois anos.
A lembrança de um amor que não se mede pelos presentes, nem pelos grandes gestos, mas pela presença. Pelo olho no olho. Pelo colo. Pelo acolhimento.
A diferença é que hoje continuo sentindo que é ela quem me guia.
Quando minha neta olha para mim com aquela carinha linda e diz:
— Vem, vovó!
Eu simplesmente vou.
Seguro sua mãozinha acreditando que sou eu quem está oferecendo segurança para que ela caminhe.
Mas, no fundo, sou eu quem me sinto segura.
Guiada.
Amparada.
Nestes dois anos vimos tudo acontecer pela primeira vez.
O balbucio virou palavras.
O colo deu lugar aos primeiros passos.
Os primeiros passos logo se transformaram em corridas pela casa.
Hoje ela sobe, desce, explora o mundo inteiro como quem já sabe exatamente para onde quer ir.
Fala igual a uma caturritinha. Nem tudo é compreensível, mas tudo faz sentido, se a gente presta atenção.
Ela entende muito mais do que imaginamos.
É impossível não perceber sua sensibilidade.
Procuro não interferir na forma como ela é educada. Primeiro porque cada geração aprende um pouco mais que a anterior — e é exatamente isso que esperamos dos nossos filhos. Depois porque meu papel agora é outro.
O que quero ensinar a ela é a admirar as pequenas coisas.
A rir das brincadeiras bobas da vovó.
A gostar dos livros.
A ouvir histórias.
A cantar.
A dançar.
E quero que ela saiba que sempre poderá contar com a minha mão. Que ela estará ali para segurar a sua enquanto eu tiver forças.
E, por isso mesmo, estou trabalhando firme para que essas forças permaneçam por muito tempo.
No fim das contas, este é um texto sobre avós e netas.
Sobre uma relação que atravessa gerações.
Que une passado, presente e futuro.
Que mistura nostalgia e esperança.
Talvez seja isso que as avós façam.
Seguram mãos.
Primeiro, as nossas.
Depois, as dos nossos filhos.
E um dia, quase sem perceber, estamos oferecendo às nossas netas o mesmo gesto que um dia recebemos.
É assim que o amor atravessa gerações.
Não em grandes declarações.
Mas em mãos que acolhem.
Que sustentam.
E que dizem, em silêncio:
Vem...
Eu estou aqui.





