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Coletânea de Textos Antigos e Ktralhas 1. Textos preservados como parte da trajetória de escrita.

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domingo, julho 19, 2026

As memórias também moram nas coisas.

Tenho ido com mais frequência à casa dos meus pais. Vou sozinha, fico uns dias e volto. Mas toda vez, é um mergulho nas memórias. 


Nas conversas, no revirar de gavetas, sempre surge algo para lembrar da infância, dos lugares onde morei, dos passeios ou qualquer outra trivialidade cotidiana empoeirada pela vida, mas que ao ser trazida à tona, brilha como ouro.


Eu costumo dizer que a gente só sente saudade, porque viveu. Não momentos extraordinários, incríveis e mágicos, mas momentos comuns, simples, aleatórios que por alguma razão são lembrados com genuína nostalgia.


Desta vez foi isso: a velha capa do liquidificador.

  

Não sei quanto tempo isso existe, mas é mais velho que eu, tanto que o rosto pintado já não aparece mais e a “franja” e as tranças da moça, parecem qualquer coisa menos isso. 


Mas acreditem, é uma moça. A parte de cima, um chapéu com o rosto e a parte de baixo, um avental. Nesta imagem está displicentemente jogado sobre uma garrafa térmica, só para que eu pudesse fotografar, meio sujo porque estava servindo de descanso de panela.


Não é a “roupa” do liquidificador que me provoca emoção, mas todas as lembranças que veem com essa imagem: 



O liquidificador enorme, com um motor pesado e muito barulhento e o copo de vidro.

A cozinha, com móveis em fórmica amarela.

O filtro de barro sobre a pia.

A campainha, trocada com minha avó, que tinha a campainha amarela numa cozinha toda azul enquanto a nossa era azul com a cozinha toda em amarelo.

O relógio de parede em formato de frigideira.

A mesinha de fórmica branca.


O liquidificador, uma das palavras mais difíceis de aprender a falar corretamente, só perde para a mánica


Aprendi a ver as horas naquele relógio. A dificuldade em entender a marcação dos minutos ainda é presente na minha lembrança.


A mesinha é a mesma onde ficava minha mamadeira aos 3 anos, onde eu fazia as lições da escola aos 8, ou tomava café correndo aos 16 antes de sair para o trabalho. 


Enfim, um objeto, uma palavra, uma fotografia, um cheiro. Qualquer coisa pode despertar uma lembrança. Mas viajar por ela, percorrer os corredores do tempo e se permitir sentir outra vez é uma escolha. 


Eu sempre escolho a viagem. E você?


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