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Coletânea de Textos Antigos e Ktralhas 1. Textos preservados como parte da trajetória de escrita.

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quinta-feira, abril 09, 2026

Passos que nos levam adiante

 

Tem fotos que parecem simples, mas carregam passos inteiros dentro delas.
Essa mexeu comigo.

Ao contrário da proposta desse projeto de escrita que visa recuperar memórias antigas através das fotografias, essa foto é muito recente, do último domingo, Páscoa.


E a Páscoa, por si só, já carrega muitas camadas de significado.


Na antiguidade, era um ritual pagão que celebrava o fim do inverno no hemisfério norte — a passagem da escassez para a abundância.


Para os judeus, a Pessach (passagem) celebra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito — a travessia do sofrimento para a liberdade.


Para os cristãos, a crucificação, morte e ressurreição de Jesus, que era judeu, acontece durante a Pessach — transformação, esperança e vida que renasce mesmo após a dor.


E essa foto, de um jeito silencioso, me fala de tudo isso.


Foi feita em um domingo de Páscoa. Mostra eu e meu marido, que caminha ao meu lado há 33 anos, seguindo nossa neta — amor das nossas vidas, filha de outro grande amor da nossa vida.


Ela representa, para nós, tudo isso: recomeço, renovação, travessia.
Da nossa juventude para a maturidade. 

Do papel de pais para o de avós.
Do que já foi vivido para tudo o que ainda está por vir.

Desde que olhei para essa foto pela primeira vez, ela me tocou fundo.


É uma cena simples.
Mas me trouxe a nostalgia de quando meus filhos eram pequenos, a ternura que a minha neta trouxe para a minha vida e esse sentimento bonito de renovação com continuidade.


Eu e o Carlos andando juntos em direção a ela —
ou talvez sendo conduzidos por ela.


Recomeçar não é voltar ao início.
É começar de novo do ponto onde a vida nos encontra.


Talvez seja isso que mais me tocou nessa imagem.
Não é só sobre recomeço.


É sobre continuidade.


Sobre perceber que a vida não anda em linha reta, nem recomeça do zero — ela se transforma, se alonga, se estende através de nós.


Um dia fomos nós guiando passos pequenos.
Hoje, seguimos passos miúdos que nos levam adiante.


E, talvez, recomeçar nunca tenha sido sobre voltar ao início.


Talvez seja apenas isso:
começar de novo do ponto onde estamos,
com outra direção,
outro fôlego,
outro sentido.


E, sem perceber, atravessamos.
Não de um ponto ao outro,
mas de quem fomos
para quem seguimos sendo.


sábado, abril 04, 2026

Após pausa estratégica: o retorno ao projeto de memórias.


Um recomeço entre memórias, diagnóstico tardio e as mudanças que a vida trouxe

Livro aberto com óculos pousados sobre as páginas
Iniciei esse projeto em 2023 e acabei deixando de lado.

Nesse período, a vida aconteceu. 

Sequelas da pandemia: ninguém aqui adoeceu de Covid. Adoecemos de… pandemia.

Foi neste período que o autismo parou de se esconder. Eu ainda não entendia, mas aquele período de intensa incerteza seria definitivo para o diagnóstico de Álex — e, posteriormente, para o meu.


Mas isso é história para outro momento.


E então, a vida recomeçou por outros caminhos


Agora, quero retomar o projeto e voltar a escrever minhas memórias. 

Muita coisa mudou. Agora sou vovó. Estela chegou há um ano e nove meses e transformou ainda mais as nossas vidas. 


Memória como herança


Iniciei o projeto falando sobre minha avó. Agora vou dar continuidade a ele por causa da minha neta: quero deixar para ela um registro sobre quem eu sou, de onde eu vim, quem eu era antes dela nascer e o quanto ela significa neste momento da minha vida. 

Para ela —  e para quem mais vier daqui para frente.

Não tenho mais crianças em casa. Dos cinco filhos, dois permanecem em casa, apenas um ainda é menor de idade, mas já está bem perto de mudar isso.

Iniciei outro blog para escrever sobre tudo um pouco, mas principalmente sobre as minhas vivências de agora. Nesse aqui, o foco principal são as memórias afetivas. 


domingo, maio 07, 2023

O álbum-diário da minha infância: memórias, família e amor que ficou


Um diário feito à mão, dez dias à beira-mar e uma vida inteira de significado

Pouco mais de 20 dias após completar meu primeiro ano de vida, meus avós paternos foram passar uns dias na praia e me levaram com eles. Até aí, nada demais. Isso se repetiria por muitos verões ainda. Mas o fato de eu ser a primeira neta e sobrinha me garantiu muitos privilégios, principalmente nesse primeiro momento em que ainda não havia com quem dividir a atenção.

Um pequeno álbum de cor azul-claro, com o desenho de uma menina japonesa no centro.

O presente que virou memória

Álbum-diário antigo com ilustração japonesa, usado para registrar memórias de infância.
O maior privilégio dessa ocasião, além de ter todos os cuidados e amor só para mim, foi o presente que minha avó preparou para dar aos meus pais no Natal que se aproximava: um álbum-diário onde ela registrou meus momentos naqueles dez dias em que fiquei sob seus cuidados.

Eu tenho tanto amor por esse álbum. Primeiro, porque foi um presente pensado, elaborado com cuidado e carinho para ser eterno. Depois, por ter sido feito pela minha avó. Sei que meu avô e minhas tias tiveram grande participação, mas foi ela quem escreveu, com a letrinha dela, do jeitinho dela. Até hoje, quando leio, ouço a voz dela na minha cabeça.

E também porque ele registra dez dias da minha vida dos quais eu não teria nenhuma lembrança. Mesmo com as fotografias, eu não saberia o contexto daqueles momentos. É por causa desse álbum que sempre quis escrever minhas memórias. Não porque sejam importantes para alguém além de mim, mas porque ganham novos significados quando são registradas.

Não é à toa que escolhi esse álbum como ponto de partida. Ele é o primeiro registro das minhas memórias em relatos e retratos. O primeiro capítulo.

Nas páginas hoje amareladas, comidas pelas traças e um pouco rasgadas, ela me apresenta. A introdução é uma foto minha no mar, de mãos dadas com minhas tias. Talvez esteja aí a explicação para eu amar tanto o mar. É onde me sinto em paz, acolhida, protegida. Posso estar sozinha, mas sempre sinto uma mão carinhosa segurando a minha.

Ela segue me descrevendo. A letra é bonita e firme, mas a escrita é simples. Minha vó era muito inteligente e lia muito, mas escreve como se fosse eu contando quem sou. Por isso, a simplicidade, sem floreios ou erudição. Ao longo das páginas, surgem gírias da época e expressões tão familiares para mim.

Nas primeiras páginas, ela conta que quem me levou foi minha dinda, tia Gina. Eu li esse diário incontáveis vezes ao longo desses 52 anos, mas só agora me dei conta desse detalhe: não foram meus avós que me levaram de carro, mas minha dinda, de ônibus.

Por que nunca prestei atenção nisso? Não sei. Talvez por dar mais atenção às histórias contadas pelo meu pai, que também adora narrar através de fotografias. Talvez porque fui tantas outras vezes de carro que meu imaginário simplesmente preencheu assim. Ou talvez porque eu sempre tenha dado mais peso às imagens do que às palavras.

O mar como primeira lembrança

No primeiro dia, um sábado, não quis saber de areia nem de água. Isso está registrado no diário, mas também ouvi muitas vezes minhas tias contarem histórias desses dias: de como eu encolhia os dedinhos ao tocar na areia e fazia cara de nojo. Isso não mudou muito. Amo o mar, mas nunca fui grande amiga da areia.

Entre o desconforto e talvez a saudade da mãe, dei um certo trabalho nos primeiros dias. Era preciso disposição para me dar colo, afinal eu ainda nem sabia andar. A sorte é que, além da vó e do vô, estavam minha dinda e as tias Marta e Sônia, ainda adolescentes, com energia de sobra para gastar comigo.

Na segunda-feira, conseguiram me tapear. A paciência das minhas tias venceu minha teimosia… ou foi o contrário? Nunca saberemos. 😁

Depois de me sujarem com areia, o golpe estava dado. A desculpa de me lavar foi aceita sem muita resistência. Daí em diante, nunca mais deixei de entrar no mar.

Amo com todas as forças. E ainda vou realizar meu sonho de morar no litoral.

Terem conseguido me colocar no mar deve ter resolvido outras questões também. Depois de um bom banho de mar, a gente come melhor e dorme melhor. Acredito que, a partir daí, dei menos trabalho. Ou não.

As pessoas que me cercavam

Ela segue descrevendo os dias, o tempo, quem estava por perto. O tio Gustavo, a outra tia Sônia — o que muito me confundia quando eu era pequena. Como assim duas Sônias? Já não bastasse uma irmã com esse nome, meu tio foi se casar justamente com outra? Ou será que era um nome muito comum? Nunca soube. Só sei que amo as duas, a de sangue e a de coração, do mesmo jeito.

Fala também do Zezinho, irmão da tia Sônia, que era piá na época e, anos depois, virou minha primeira paixonite, lá pelos seis anos. Eu gostava muito dele. Era bonito, paciente, brincava comigo e ainda era cuidadoso. Como não se apaixonar?

Também aparecem os “amiguinhos” das minhas tias, da minha dinda e dos meus pais, especialmente nos fins de semana.

Há relatos de passeios com o vô, caminhadas na praia, uma ida de carro até Capão — que, pelo visto, eu odiei e dei trabalho para todo mundo —, das brincadeiras com minhas tias e dos meus primeiros passos.

Sim. Voltei para casa caminhando sozinha.

Minha mãe ficou triste por não ter presenciado esse momento, mas teve o privilégio de vê-lo registrado em fotos. Algo comum hoje, mas raro naquela época.

Eu não tenho lembranças conscientes desse veraneio. Mas ver as fotos e ler esse diário me dá a certeza de que fui muito amada. De que tive colo, cuidado e presença.

O que ficou depois

Minha convivência com a família paterna foi muito próxima e intensa na infância e início da adolescência. Depois, a vida foi espalhando todos: primos nasceram, tias mudaram de cidade, meu tio se separou e casou novamente, meu avô faleceu quando eu tinha 14 anos.

Nunca mais fomos tão próximos.

Com exceção da minha dinda, dos filhos dela e das filhas do meu tio, cada um seguiu seu caminho.

Minha vó ainda conheceu meu filho mais velho. Moramos com ela por cerca de um ano e meio, e ele tinha quatro anos quando ela faleceu. Hoje, minha dinda e meu tio também já não estão mais aqui.

Mas essas perdas ficam para outro dia.

Hoje é dia de boas lembranças. De uma infância cercada de amor e privilégios.

Minha família nunca foi rica. Mas, para mim, riqueza sempre foi tê-los por perto: os almoços de fim de semana na casa da vó, os veraneios juntos, as temporadas na casa dela, o carinho constante da minha dinda.

Essa convivência teve seus percalços, como toda família tem. Mas foi ela que me construiu.

E eu sou profundamente grata por essas memórias.