Ktralhas

Reflexões sobre neurodivergência, saúde, família e cotidiano.

Explorar

Arquivo Histórico

Coletânea de Textos Antigos e Ktralhas 1. Textos preservados como parte da trajetória de escrita.

Visitar arquivo

quinta-feira, julho 23, 2026

Mãos que atravessam gerações

Minha neta completou dois anos.

E eu, que nem sou emotiva (cof, cof...), vivi essa comemoração como uma celebração das mulheres que vieram antes dela.

Enquanto segurava aquelas mãozinhas pequenas, lembrei das mãos das minhas avós. Das lembranças que ficaram. Das que nunca existiram. E de como o amor pode atravessar gerações sem precisar dizer muita coisa.

Minha avó materna faleceu quando eu tinha apenas seis anos. Convivi muito pouco com ela, o que é realmente uma pena. Às vezes penso no quanto minha vida seria mais rica se tivesse convivido mais com a mãe da minha mãe. Quanto entendimento eu teria adquirido, ainda cedo, sobre quem eu sou a partir de quem ela era. Sobre o que poderia ter me ensinado a respeito da minha própria mãe.

Mesmo com essa grande lacuna, e apesar da distância física — ela morava muito longe — ficaram duas lembranças muito vivas.

Na primeira, ela brigava com todos os netos por causa de alguma arte que fizemos juntos. Mas ralhava especialmente com meu primo, que morava com ela e era o mais sensato e comportado de todos. Justamente por isso: porque ele deveria ter impedido a bagunça antes que desse M*, e não impediu.

A outra lembrança é dela sentada na cadeira, diante do fogão à lenha. Cobertor sobre o colo. Chimarrão nas mãos. Serenidade no rosto, mas sacudindo a perna daquele jeitinho inquieto que hoje me faz sorrir e pensar: será que veio daí?

Em compensação, minha avó paterna foi muito presente na minha vida. Morávamos na mesma cidade e eu também fui a primeira neta — um privilégio que não posso negar.

Ela nunca foi exatamente uma avó carinhosa. Demonstrava amor de outras formas.

Passei muitos dias, às vezes semanas, na casa dela. Ela e minha dinda eram outro tipo de mãe. Ralhavam mais comigo do que meu avô, que era um verdadeiro bobão — no melhor sentido da palavra — e fazia todas as minhas vontades.

Para resumir nossa relação, basta lembrar do dia em que ela faleceu, vítima do Alzheimer.

No velório, eu não conseguia reconhecê-la.

Ela havia emagrecido muito. Parecia menor. Como se tivesse encolhido. Os cabelos estavam completamente brancos. A doença avançou tão depressa que ela deixou de ser aquela senhora imponente e vaidosa numa velocidade que eu não consegui acompanhar.

Sem maquiagem, sem joias, sem o cabelo cuidadosamente pintado e escovado, usando uma roupa simples... aquela mulher parecia uma desconhecida.

Até que olhei para suas mãos.

Estavam juntas, repousando sobre o colo.

Toquei nelas.

E imediatamente reconheci o toque que guiou as minhas durante tantos anos.

Foi ali que chorei.

Não chorei de tristeza. Ela já sofria havia muito tempo com uma doença sem cura e sem alívio.

Chorei pela constatação daquele amor.

Um amor que nunca foi espalhafatoso. Que nunca precisou de grandes demonstrações. Um amor transmitido pelas mãos segurando as minhas.



Foi exatamente essa lembrança que voltou ao meu coração enquanto segurava as mãos da minha neta nesses últimos dois anos.

A lembrança de um amor que não se mede pelos presentes, nem pelos grandes gestos, mas pela presença. Pelo olho no olho. Pelo colo. Pelo acolhimento.

A diferença é que hoje continuo sentindo que é ela quem me guia.

Quando minha neta olha para mim com aquela carinha linda e diz:

— Vem, vovó!

Eu simplesmente vou.

Seguro sua mãozinha acreditando que sou eu quem está oferecendo segurança para que ela caminhe.

Mas, no fundo, sou eu quem me sinto segura.

Guiada.

Amparada.

Nestes dois anos vimos tudo acontecer pela primeira vez.

O balbucio virou palavras.

O colo deu lugar aos primeiros passos.

Os primeiros passos logo se transformaram em corridas pela casa.

Hoje ela sobe, desce, explora o mundo inteiro como quem já sabe exatamente para onde quer ir.

Fala igual a uma caturritinha. Nem tudo é compreensível, mas tudo faz sentido, se a gente presta atenção.

Ela entende muito mais do que imaginamos.

É impossível não perceber sua sensibilidade.

Procuro não interferir na forma como ela é educada. Primeiro porque cada geração aprende um pouco mais que a anterior — e é exatamente isso que esperamos dos nossos filhos. Depois porque meu papel agora é outro.

O que quero ensinar a ela é a admirar as pequenas coisas.

A rir das brincadeiras bobas da vovó.

A gostar dos livros.

A ouvir histórias.

A cantar.

A dançar.

E quero que ela saiba que sempre poderá contar com a minha mão. Que ela estará ali para segurar a sua enquanto eu tiver forças.

E, por isso mesmo, estou trabalhando firme para que essas forças permaneçam por muito tempo.

No fim das contas, este é um texto sobre avós e netas.

Sobre uma relação que atravessa gerações.

Que une passado, presente e futuro.

Que mistura nostalgia e esperança.

Talvez seja isso que as avós façam.

Seguram mãos.

Primeiro, as nossas.

Depois, as dos nossos filhos.

E um dia, quase sem perceber, estamos oferecendo às nossas netas o mesmo gesto que um dia recebemos.

É assim que o amor atravessa gerações.

Não em grandes declarações.

Mas em mãos que acolhem.

Que sustentam.

E que dizem, em silêncio:

Vem...

Eu estou aqui.


domingo, julho 19, 2026

As memórias também moram nas coisas.

Tenho ido com mais frequência à casa dos meus pais. Vou sozinha, fico uns dias e volto. Mas toda vez, é um mergulho nas memórias. 


Nas conversas, no revirar de gavetas, sempre surge algo para lembrar da infância, dos lugares onde morei, dos passeios ou qualquer outra trivialidade cotidiana empoeirada pela vida, mas que ao ser trazida à tona, brilha como ouro.


Eu costumo dizer que a gente só sente saudade, porque viveu. Não momentos extraordinários, incríveis e mágicos, mas momentos comuns, simples, aleatórios que por alguma razão são lembrados com genuína nostalgia.


Desta vez foi isso: a velha capa do liquidificador.

  

Não sei quanto tempo isso existe, mas é mais velho que eu, tanto que o rosto pintado já não aparece mais e a “franja” e as tranças da moça, parecem qualquer coisa menos isso. 


Mas acreditem, é uma moça. A parte de cima, um chapéu com o rosto e a parte de baixo, um avental. Nesta imagem está displicentemente jogado sobre uma garrafa térmica, só para que eu pudesse fotografar, meio sujo porque estava servindo de descanso de panela.


Não é a “roupa” do liquidificador que me provoca emoção, mas todas as lembranças que veem com essa imagem: 



O liquidificador enorme, com um motor pesado e muito barulhento e o copo de vidro.

A cozinha, com móveis em fórmica amarela.

O filtro de barro sobre a pia.

A campainha, trocada com minha avó, que tinha a campainha amarela numa cozinha toda azul enquanto a nossa era azul com a cozinha toda em amarelo.

O relógio de parede em formato de frigideira.

A mesinha de fórmica branca.


O liquidificador, uma das palavras mais difíceis de aprender a falar corretamente, só perde para a mánica


Aprendi a ver as horas naquele relógio. A dificuldade em entender a marcação dos minutos ainda é presente na minha lembrança.


A mesinha é a mesma onde ficava minha mamadeira aos 3 anos, onde eu fazia as lições da escola aos 8, ou tomava café correndo aos 16 antes de sair para o trabalho. 


Enfim, um objeto, uma palavra, uma fotografia, um cheiro. Qualquer coisa pode despertar uma lembrança. Mas viajar por ela, percorrer os corredores do tempo e se permitir sentir outra vez é uma escolha. 


Eu sempre escolho a viagem. E você?


quinta-feira, maio 07, 2026

Restauração, de fotos e de histórias

Hoje, lendo as notícias em um portal conhecido, me deparei com uma chamada sobre a restauração de fotos antigas com o auxílio de inteligência artificial (IA) e a emoção que isso provocara às vésperas do Dia das Mães.

Óbvio que quis experimentar. Meus filhos, a maioria pelo menos, já pertencem à geração digital. Foram fotografados desde o nascimento em câmeras digitais. E os mais velhos tiveram apenas poucos anos da infância ainda na era analógica. Portanto, testei com fotos minhas.

E sim: com um simples comando para uma IA, o passado retorna nítido e em cores. E isso reverbera nas nossas emoções.

O tempo em negativos

Na minha infância, fotografias eram um luxo. Câmeras eram caras, filme era caro, revelação era cara. Não havia meios de se ter ideia exata de como a foto ficaria após a revelação, e fatores como o uso de óculos por quem fotografava já poderiam ser suficientes para distorcer a imagem entre o que era visualizado na minúscula janelinha da câmera e o que realmente sairia no negativo e, posteriormente, na fotografia revelada.

As fotos, então, ou eram feitas em estúdio, com fotógrafo profissional, e saíam ainda mais caras, ou eram feitas por fotógrafos amadores, em câmeras com poucos recursos, normalmente usando filmes de 12 poses. Isso significava que uma foto ou outra era tirada apenas em momentos relevantes, e reveladas, às vezes, meses ou anos depois da primeira.

Era comum a decepção ao buscar as fotos reveladas. Aquela pose feita 17 meses antes, num lugar bacana, ficava clara demais, “estourada”. A outra, feita no aniversário com a família reunida, tinha metade das pessoas com o topo da cabeça cortado pelo enquadramento, aquele defeitinho clássico de quem usa óculos ao fotografar. Ou faltavam os pés.

Ou, no pior cenário, como aconteceu comigo no primeiro aniversário do meu filho: um filme de 36 poses, um luxo caríssimo, totalmente perdido por ter sido mal colocado na câmera e exposto à luz no momento de retirá-lo para revelar. Um trauma jamais esquecido.

Até que, para minha idade, tenho muitas fotografias de infância. Minha família paterna sempre foi apaixonada por essa tecnologia. E, para mim, cada foto conta uma história.

Quando a memória volta em cores

Usei essa montagem de fotos do meu rostinho infantil para testar. E fiquei muito tocada com o resultado. Me aborreci um pouco porque a IA não foi inteligente o suficiente para saber exatamente a cor do meu cabelo, um loiro acinzentado muito peculiar, herança de família da qual me orgulho muito. Mas me emocionei ao rever, de forma tão nítida, minhas feições de criança.

A menina dentro da fotografia

Viajei no tempo e vi, em cada tentativa de sorriso “pra foto”, a criança que se sentia estranha e sozinha, e que já filosofava sobre o sentido da vida. A que sempre foi autista e nunca soube, até começar a envelhecer, e que teve sua vida profundamente impactada por isso.

Olhei para ela e senti ternura. Vontade de abraçá-la e dizer: vai ser difícil, mas você vai sobreviver.


O que permanece


Essa viagem no tempo também me permitiu perceber os avanços tecnológicos que acompanhei ao longo da vida, os avanços e retrocessos da nossa sociedade, as mudanças de caminho e toda sorte de coisas e pessoas que impactam nossa trajetória.

Eu sempre me senti sozinha, mas tenho consciência de que não estava. Mesmo quem me ignorava ou me atrapalhava contribuiu, de alguma forma, para o meu desenvolvimento enquanto pessoa.

Sou a soma dos genes herdados dos meus pais com o ambiente onde cresci e vivo, das pessoas que passaram pela minha vida e das experiências que vivi. Isso faz de mim uma pessoa única. Nem melhor nem pior do que ninguém. Apenas única.

Olho para aquela menina com outros olhos hoje. E provavelmente olharei sob outra perspectiva mais adiante.

Ela mudou muito, mas ainda mora em mim.

A essência daquela menina ainda vive aqui.

E é por ela que continuo. 

quinta-feira, abril 09, 2026

Passos que nos levam adiante

 

Tem fotos que parecem simples, mas carregam passos inteiros dentro delas.
Essa mexeu comigo.

Ao contrário da proposta desse projeto de escrita que visa recuperar memórias antigas através das fotografias, essa foto é muito recente, do último domingo, Páscoa.


E a Páscoa, por si só, já carrega muitas camadas de significado.


Na antiguidade, era um ritual pagão que celebrava o fim do inverno no hemisfério norte — a passagem da escassez para a abundância.


Para os judeus, a Pessach (passagem) celebra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito — a travessia do sofrimento para a liberdade.


Para os cristãos, a crucificação, morte e ressurreição de Jesus, que era judeu, acontece durante a Pessach — transformação, esperança e vida que renasce mesmo após a dor.


E essa foto, de um jeito silencioso, me fala de tudo isso.


Foi feita em um domingo de Páscoa. Mostra eu e meu marido, que caminha ao meu lado há 33 anos, seguindo nossa neta — amor das nossas vidas, filha de outro grande amor da nossa vida.


Ela representa, para nós, tudo isso: recomeço, renovação, travessia.
Da nossa juventude para a maturidade. 

Do papel de pais para o de avós.
Do que já foi vivido para tudo o que ainda está por vir.

Desde que olhei para essa foto pela primeira vez, ela me tocou fundo.


É uma cena simples.
Mas me trouxe a nostalgia de quando meus filhos eram pequenos, a ternura que a minha neta trouxe para a minha vida e esse sentimento bonito de renovação com continuidade.


Eu e o Carlos andando juntos em direção a ela —
ou talvez sendo conduzidos por ela.


Recomeçar não é voltar ao início.
É começar de novo do ponto onde a vida nos encontra.


Talvez seja isso que mais me tocou nessa imagem.
Não é só sobre recomeço.


É sobre continuidade.


Sobre perceber que a vida não anda em linha reta, nem recomeça do zero — ela se transforma, se alonga, se estende através de nós.


Um dia fomos nós guiando passos pequenos.
Hoje, seguimos passos miúdos que nos levam adiante.


E, talvez, recomeçar nunca tenha sido sobre voltar ao início.


Talvez seja apenas isso:
começar de novo do ponto onde estamos,
com outra direção,
outro fôlego,
outro sentido.


E, sem perceber, atravessamos.
Não de um ponto ao outro,
mas de quem fomos
para quem seguimos sendo.


sábado, abril 04, 2026

Após pausa estratégica: o retorno ao projeto de memórias.


Um recomeço entre memórias, diagnóstico tardio e as mudanças que a vida trouxe

Livro aberto com óculos pousados sobre as páginas
Iniciei esse projeto em 2023 e acabei deixando de lado.

Nesse período, a vida aconteceu. 

Sequelas da pandemia: ninguém aqui adoeceu de Covid. Adoecemos de… pandemia.

Foi neste período que o autismo parou de se esconder. Eu ainda não entendia, mas aquele período de intensa incerteza seria definitivo para o diagnóstico de Álex — e, posteriormente, para o meu.


Mas isso é história para outro momento.


E então, a vida recomeçou por outros caminhos


Agora, quero retomar o projeto e voltar a escrever minhas memórias. 

Muita coisa mudou. Agora sou vovó. Estela chegou há um ano e nove meses e transformou ainda mais as nossas vidas. 


Memória como herança


Iniciei o projeto falando sobre minha avó. Agora vou dar continuidade a ele por causa da minha neta: quero deixar para ela um registro sobre quem eu sou, de onde eu vim, quem eu era antes dela nascer e o quanto ela significa neste momento da minha vida. 

Para ela —  e para quem mais vier daqui para frente.

Não tenho mais crianças em casa. Dos cinco filhos, dois permanecem em casa, apenas um ainda é menor de idade, mas já está bem perto de mudar isso.

Iniciei outro blog para escrever sobre tudo um pouco, mas principalmente sobre as minhas vivências de agora. Nesse aqui, o foco principal são as memórias afetivas.